Escombros…

francine

Francine Van Hove

Meu coração prefere acreditar nessas promessas,
Mesmo essas que só fazem abrir minhas janelas
Pra nenhuma paisagem.

[Túlio Mourão]

     Olhando ao redor percebo, com certa angústia e desespero, que não há portas nem janelas que possam se abrir, para que eu consiga ir embora das paredes que levantei. Há uma desordem instalada e umas teias de aranha que, olhando de longe, poderiam dar um ar artístico ao lugar abandonado, mas não é o que acontece. A mobília está intacta, mas o pó nada deixa ver, além da sujeira aparente. Existem alguns versos esparramados aqui e ali, jogados pelo assoalho que geme infeliz, quando é tocado. Minha casa é meu corpo, sem endereço fixo. Estou sempre de partida, mesmo quando chego. E a única bagagem que trago comigo é a alma. Eu trazia, também, um par de asas, mas ficou esquecido num sonho distante. Agora, só me restam os sapatos surrados e esse cansaço de ir, sem saber para onde. 
Publicado em Prosa | Marcado com | 8 Comentários

Adoro-te…

484329_342530999148613_2125079510_n

Desconheço a autoria da Imagem.

“Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar.

E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos,

nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.”  [Rubem Alves]

 

Porque de dentro do teu abraço

o mundo é mais justo…

(tem cheiro de amanhecer).

.

E o teu beijo me leva ao ápice do existir,

uma espécie de morte doce e lenta dos sentidos…

(faz renascer em mim todos os desejos que julguei perdidos).

.

E não há toque mais perfeito

que a minha pele, pálida, poderia um dia querer…

(tuas mãos: oásis para o meu corpo).

.

Já não me vejo sem a tua imagem, moço,

assim, lado a lado, olhos perdidos entre abismos e infinitos…

(e pensar que quase não acontecemos!)

Publicado em Poesia | Marcado com | 4 Comentários

A busca…

mendigo-morto

Desconheço a autoria da Imagem.

O mendigo dizia ao céu:
– Afinal tu não hás de me cair em cima.
E o céu:
– Nem tu hás de me escalar.

{Machado de Assis}

     Vivia uma semi-vida, regrada a comida que no lixo encontrava, ou quando muito a sorte lhe abria, alguém lhe via vagando pelas ruas e se compadecia, dava-lhe algum trocado ou até mesmo algo para comer, que não estava podre nem sujo. Passou a vida assim: vagando de cidade em cidade. Muitas vezes ganhava carona, mas a maioria do percurso era a pé. Sentia-se cansado demais para se entregar a um canto qualquer do mundo e, por isso, decidiu morrer caminhando. Pensava que, talvez, encontraria algum sentido na vida assim, perambulando sem rumo. Mas o sentido não veio e ele adoeceu feio, o que o obrigou a escolher uma escadaria, de frente a uma Igreja antiga do interior, e ali permanecer sozinho, sentindo muita dor. Seus olhos, que já não carregavam brilho algum, acabou por apagar o mísero lume. Seu corpo, magro e derrotado, venceu-se ali, ao pé de Cristo, à sombra de uma cruz que só ele sentia o peso. E ninguém deu por aquele corpo sem vida, encolhido e frio, naquela manhã de sexta-feira. 

Publicado em Prosa | Marcado com | Deixe um comentário

O intratável do amor…

corpo

Desconheço a autoria da Imagem.

Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras?

Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer.

Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento.

[José Luís Peixoto]

Tantas cartas sem respostas

e olhares não correspondidos.

A espera infinita por um aceno,

uma palavra qualquer, um gesto teu…

.

Onde brotavam sorrisos sinceros

hoje vejo um rastro de indiferença…

Parece que, enfim, conseguiste:

me esqueceste de vez.

.

E mesmo que eu dissesse

que te amo tanto

(que te amo ainda mais)

um amor feito de esperas,

que floresce no silêncio das frestas,

pelos cantos de mim, sobre as cinzas,

diluindo a ferrugem do tempo

que passei longe de ti…

.

Mesmo assim, de nada adiantaria.

Percebo o terror do sonho que inventei

e morro sozinha, cada vez te lembro meu.

Agora, sou um mapa vivo

por onde percorreram tuas mãos.

Trago, feito tatuagem, a impressão dos teus dedos

e, na boca, o gosto inesquecível do teu beijo.

.

E terei de conviver com este de ti,

que guardo em mim como presságio.

Um adeus de portas sempre abertas,

visitando meus medos e desejos.

A vida não me preparou para isto…

(mesmo eu sabendo que o amor

se faz sob o signo do efêmero).

.

Soube, desde sempre,

que a qualquer momento

o amor me faltaria e, por isso,

eduquei meus olhos para não chorar

e meus braços para acolher, de novo,

o vazio.

.

Eu sabia que esse dia ia chegar.

E compreendi o recado…

Esses, são os últimos versos

que te faço.

.

Publicado em Poesia | Marcado com | 2 Comentários

Fragmentos…

11265363_10200600801500619_3647130946164287593_n

Desconheço a autoria da Imagem.

Escrevi sobre ti mais de mil poemas
Por isso não me deves nada;
Sou eu que te devo tudo
Tudo o que senti
Sem ti…

[Emílio Miranda]

Desbotado, o verde dos olhos fez-se cinza. Cor que morre no fim, mas que ainda acredita tornar-se sol, infinito encanto para o encontro de outros olhos de luz. (Sorriu.) Perguntava-se se merecia aquela canção que ele havia cantado para ela e que, agora, se repetia incansavelmente na memória. (Não ousou responder…).

As horas se arrastavam entre o tédio e a falta de qualquer coragem. O pano de fundo: umas felizes lembranças ao lado dele. Irritou-se, sem entender bem o porquê. Quis jogar uma praga, mas escreveu um poema. Deitou-se no chão frio e dormiu. Sonhou que era cachoeira e que suas águas eram mágicas. Fez um pedido: queria ser um espelho e se quebrar em mil pedaços. Acordou em fragmentos.

Pensou, por fim, que apenas aquele abraço poderia colar no lugar esses pedaços e trazer de volta o verde do olhar…

Publicado em Prosa | Marcado com | 2 Comentários

Sobre a dor e o esquecimento…

brooke-shaden8

Brooke Shaden

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

[Cecília Meireles]

A agonia pode ser tão cheia

de vida…

E dói. Viver dói,

mas é a dor que nos faz perceber

que ainda estamos vivos.

.

[Um dia hei de viver o abandono

sem sentir medo…

E amarei as tempestades

porque com elas comungarei a calma,

morrerei nos jardins, feito flor,

nua e em total silêncio…]

.

Ouve… ouve o som da morte?

Todo silêncio é um grande barulho interno…

E a única voz que ouso ouvir

é a que dita os meus pensamentos.

[Insanidade que me alimenta]

Fora isso, não há ninguém aqui.

Um quarto branco, cheio de coisas

vazias…

[Como eu]

.

Pequenas rachaduras

insetos e o som estridente

dos cães na rua.

Uma luz, trêmula, que insiste iluminar

o que se esconde nas sombras.

.

Há um pequeno grande mundo

dentro de mim.

Um universo minúsculo e imaginário…

[Se desfazendo?]

.

E tudo fica muito denso,

vasto e abandonado.

Um inferno em vida,

sem monstros para matar

nem guerras para vencer.

Tudo já foi feito, dito,

compreendido…?

.

E se eu morrer amanhã?

.

.

.

Nada.

Nada mudaria,

porque a vida tem uma estranha forma

de curar ausências…

[o lodo escuro do esquecimento

que tudo abarca, que tudo corrói].

.

E, um dia, eu seria apenas

mais uma lembrança esquecida

nos olhos de alguém.

.

Publicado em Poesia | Marcado com | 7 Comentários

Flor…

brooke-shaden

Brooke Shaden

A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.

[Cecília Meireles]

Sou estreita fenda por onde o sol
se esquiva, tristonho, e renasce em vão…
Onde, antes, queimavam labaredas,
restam cinzas e um tempo que não passa.
Entre o nada e a mágoa,
escrevo palavras que ninguém lê.

Há um tratado silencioso
das coisas que protegem da dor.
Mas isso é apenas mais uma mentira
repetida, incontáveis vezes, para
então, se tornar verdade.

Evito o confronto com as memórias,
com meus olhos no espelho,
com a vida lá fora… e percebo
que ninguém sai impune
ao negar o amor que sente.

Eu sou a faca que corta
uma a uma, sem dó,
todas as flores que plantaram
em meu caminho.

Eu sou aquela que,
sempre atrasada ou adiantada demais,
nunca soube viver a serenidade
do tempo certo.

Eu sou a tempestade que destrói casas,
que arrasta carros e amedronta pássaros.
Sou aquela que perdeu a importância
e que, só no silêncio, encontra a integridade
para ser, sem fazer doer o mundo.

Eu não sou.
Mas tenho uma fé insistente
de que toda ferida
há, ainda, de virar flor.

Publicado em Poesia | Marcado com | Deixe um comentário