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Desconheço a autoria da Imagem.

São brancas as flores que te crescem nas mãos. 
Existes na imensa solidão do amor.
Vives num estado de anjo invisível.

[Rui Miguel Fragas]

      O coração, ruidoso, sangra o silêncio de cada lágrima. Que pode uma mulher que rouba pedras do jardim, para construir o seu próprio templo? Dei para habitar os vãos do tempo e a me perder por entre as frestas do acaso. Transbordo esperar. Vivo de espasmos. A cada vez que me olho no espelho, reconheço outra de mim que já havia esquecido há séculos. Como pode uma mulher carregar nos braços a eternidade sem, antes, partir-se ao meio? As pequenas coisas, muitas vezes, pesam mais. Por acumular miudezas, recriei o universo e seu insondável infinito. Aprendi a interpretar o que fica, depois que o amor vai embora, e a ignorar as respostas de perguntas que não fiz. Desde então, vejo melhor em dias de chuva ou quando ando sobre o fogo. Se agora choro, é porque desaprendi a sofrer calada.

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Na ausência, nada…

Antonio Mora3

Antonio Mora

Tanta saudade
Do seu carinho
Quanta saudade

[Vinicius de Moraes]

Na distância cabe cartas, telefonemas,
mensagens de voz, cartões-postais,
lágrimas e sorrisos de saudade.
Na ausência, nada.

Talvez só palavras inacabadas
e um silêncio de doer ossos.
Às vezes penso que se eu fechar os olhos
o mundo cairá morto aos meus pés.

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Se…

Lauren Semivan

Lauren Semivan

o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

[Mia Couto]

Pelas pontas dos dedos,
vértices, fugas, ângulos retos,
uma travessura. Atravessamentos.
Trampolins e asas,
uma fagulha de esperança.
Lanço-me e abraço os rochedos.

Ah, se eu tivesse dado ouvidos às pontes.
Se houvesse experimentado o pólen
da boca de uma borboleta azul.
Se tudo não tivesse que ser tão depressa.
Se a vida fosse agora.
Se eu tivesse ainda a certeza do teu amor…

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Cotidiano…

cotidiano

Desconheço a autoria da Imagem.

A vida é um sopro.

[Oscar Niemeyer]

      Saio pelas ruas e o dia se coagula diante dos meus olhos: sua pele fina, exposta, sangra o mundo. E dói-me tudo. As pedras, que habitam o asfalto, são poros do intraduzível. Crianças brincam de bola numa pracinha de terra batida e parecem felizes, apesar de. Uma senhora leva uma sacola de pão e seu andar é mais rápido do que o meu. Um homem olha para mim como se quisesse me dizer algo, mas o ignoro. Arrasto-me e levo comigo o peso dos dias mal vividos. Uma sinfonia de Bach toca ao longe, mas percebo que só eu escuto. O frio é intenso e penso no moço que acabei de ver, deitado no passeio, tendo ao seu lado apenas uma garrafa vazia. O ônibus passa sem parar e uma mulher, que segura firme o seu bebê no colo, grita palavrões, mas a criança não chora. Do outro lado da rua, um cachorro brinca com um pássaro morto, antes de devorá-lo por inteiro. O dia vai se configurando, dentro de uma moldura perversa, que enfeita as paredes estreitas do nosso vazio.

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Poesia

NataliaDrepina

Natalia Deprina

Haverá sempre um gesto capaz de substituir a palavra não dita
e haverá sempre nos olhos um dicionário para explicar as palavras
que não conseguem alcançar a extensão da fala.

[Sândrio Cândido]

Ouça o ventre do Nada.
Não é fácil embrionar versos,
depois de organizar os orgasmos
contidos em cada sílaba.

Parir parágrafo por parágrafo
e transformá-los em pássaros.
Eis o risco: não sucumbir
ao fluxo sanguíneo de um poema.

Alguns dirão que é um exercício inútil.
Outros, que é só bruxaria.
Eu apenas creio nos átomos
que sustentam cada palavra,
transformando-a em vida
no tecido da Poesia.

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Nada…

Noell Oszvald3

Noell Oszvald

Nada me resgata.
Não sei se sou quem morre
ou quem mata.

[Salgado Maranhão]

A solidão tem seu próprio ritmo. 
É um ritmo permeado pelo som do nada. 
Não, não é de silêncio que eu estou falando. 
O silêncio é o som do mundo, quando dorme. 
A solidão é o ritmo do nada. 
E o nada é composição da ausência.
Falta absolutamente tudo nesse estado de latência.

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vagalumes

Desconheço a autoria da Imagem.

A noite diante de nós é imensa
e avança sem deter-se.
Estamos juntos, meu amor,
sentados nos lírios, sorrimos!

[Sândrio Cândido]

Vaga-lumes são poesias
que recitam luz.
Depois de mergulhar
nas sombras do esquecimento,
qualquer faísca é sol. Era um sonho?

Pescou palavras
atoladas em metáforas até o joelho.
Sorriu do absurdo que é sonhar.
Agarrou o verso pela cintura
e esqueceu da luminescência de tudo.

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