Nunca mais…

late_goodbye_by_SuzyTheButcher

Desconheço a autoria da Imagem.

(…)
lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor.

[Valter Hugo Mãe]

Acordei no tempo do nunca mais.
Não havia portas ou janelas
que me dessem, minimamente,
uma perspectiva de luz.
Não tinha flores secas em livros,
nem colhidas despretensiosamente
no jardim… não tinha flores.

O tempo do nunca mais
era tempo demais, longe de ti.
(Um verdadeiro pesadelo!)
Não havia asas pousadas em costas,
nem poemas ou declarações.
Tudo estava silencioso e impreciso,
tão calmo, como deve ser a morte.

Nunca mais o coração pulsando no peito
e beijos apaixonados, às duas da tarde.
Nunca mais sorrisos secretos
e encontros nas esquinas sem nomes.
O tempo do nunca mais conjuga verbos
carregados de incertezas…
(Mas tenho certeza de que te adoro).

E eu sinto falta da eternidade
que mora no teu abraço.
Eu, que poderia jurar que nasci
para comungar do ‘para sempre’,
fico sem saber o que fazer
do que sobrou de mim.
Eu, logo eu, que nunca tinha
amado assim… o que eu faço de mim?

Nunca mais é longe demais!
E me doem as pernas, as mãos,
os ombros e os olhos.
Eu, que já me sinto cansada
– um cansaço de outras vidas –
não sei mais se quero caminhar
sozinha ou acompanhada.
Não sei mais se quero ir ou ficar.
Não sei de mais nada.

Nunca mais…
Nunca mais…
Nunca.

.
.
.

Assisto, impacientemente,
ao suicídio de uma mariposa…
Só ela sabe o teu nome.

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Carta

Vonandi Bahr

Vonandi Bahr

{Mesmo implícita, tenho ânsias de escrever-te.
Desenrolo-me em linhas, infinitos parágrafos,
palavras-mito e cruéis verdades.
Sou eu inteira, agora, em primeira pessoa do singular.}

 

***

     Estas palavras que te dou não são para serem lidas assim, num único fôlego. Precisam ser desconstruídas antes de significarem. Sim, eu renuncio a toda espécie de sentido. Quero que atribuas a mim todos os significados que me cabem e também os que me faltam. Desfaço-me em sombras, num jardim inteiro plantado por tuas mãos. Colha-me com os olhos, feito flor pequenina, porque, se ainda existo, é por algum descuido milagroso.

    Liberto-me dos meus erros e me cerco da realidade. Observo-me. Tendo eu apenas as palavras como companhia, sinto-me ininteligível. Mas sei que tu me compreendes até no mais absurdo silêncio. Fazemos parte da mesma prece incauta, aquela que não é proferida nas missas de domingo e que renega o amém. Somos a nossa própria criação. Viemos da mesma essência das coisas: uma verdade (re)inventada. Seria esse o motivo de não cabermos em nós mesmos?

    Transbordo. Mergulho em mim e sou isto: um caldo denso e escuro. E é de dentro dessa substância pegajosa que te escrevo. Pura e simples, com um infinito cansaço refletido nos olhos. Meu corpo cede, consciente, às inconsciências de que sou feita. É que não ouso me ignorar naquilo que de mim não sei.  Embriago-me de dúvidas e desfaleço nos teus braços.

    E se tu ouves a minha voz enquanto lê, é porque sabes da cadência com que pronuncio os meus segredos nos teus ouvidos. Então, deixa-me ser. Deixe-me fluir, líquida, como rio que corre direto para o mar. O teu mar.

(Tenho fotografado o instante em que senti o teu cheiro. Sim, eu o eternizei na memória que compõe os meus sentidos. Quis encher a boca com o gosto da tua pele e, assim, me perfumar por dentro, mas fui incapaz de pensar nisso naquele momento).

    Quero me reconhecer, um dia, naquilo que te fez homem, enquanto ser amado. Desejo estar impressa em teu corpo, feito cicatriz que não passou pelo processo da dor, que não sangrou, mas que existe, assim, gravada, não na superfície da pele, mas dentro de ti. Uma tatuagem do avesso. Sim, é isso o que eu quero ser. Uma marca que não sai, que não se apaga nem com o tempo, nem com a necessidade que um dia possas ter de me jogar nas águas escuras do teu pensamento.

    Quero olhar nos teus olhos e me encontrar ali, inteira, nua e sem medo, como se tu e eu fôssemos um, cercados de nós. E quando perguntarem a mim “Quem é você?”, responderei sem ter que pensar duas vezes que sou parte de alguém muito maior. Complemento e redenção. Sou tua carne e tua vida. Tua morte e teu perdão. TUA, simplesmente.

    Ah, eu poderia me habituar à felicidade! Seria como uma espécie de prêmio? Não sei, mas, sim, eu poderia facilmente me habituar à felicidade, como o pássaro se habitua ao voo, desde que compreende a existência das asas. E poderia sair por aí, de mãos dadas contigo, fingindo que desde sempre fui assim… (completa). Vestir-me dessa alegria é mesmo uma espécie de sonho. E será que eu tenho o direito de sonhar com o impossível? Parece-me que este luxo só é dado aos deuses. Mas tu me olhaste nos olhos e algo em mim se divinizou. Tu me deste asas.

    Quantas vezes terei que me defender, sendo eu inocente? Não, eu não temo as pedras que voam sobre a minha cabeça… Mas, ouça: quero te falar de amor. Preciso te contar do meu amor. Escuta, porque eu não tenho ninguém mais que possa me ouvir. O universo cegou seus ouvidos para mim e eu, detentora de todo o silêncio que persiste, sinto essa necessidade calma de gritar teu nome. Talvez seja porque ele me lembre da palavra AMOR, escrito assim, em letras garrafais. (E porque no teu nome cabe um mar inteiro de amor…).

  Por ti, sou toda amor. E confesso: estou assustada, mas, também, agradecida. Compreendo que depois de um tempo temos que ser responsáveis pelo amor que carregamos no peito. E eu me responsabilizo. Eu te liberto daquela obrigação de ter que ser eternamente responsável por mim, a quem cativaste. Bobagem! Toda a responsabilidade sempre coube a mim, que escolhi te adorar e te seguir com os olhos, tu estando por perto ou não.  Amar é ter o prazer no limite da angústia e, quanto a isso, eu já me acostumei.

    Apenas sinto-me frustrada. Eu posso te dizer: “Eu sou aquela que te ama e te adora como ninguém”. No entanto, as palavras estão cercadas de limites e significados que nunca alcançam, de fato, o que eu sinto. Eu não senti restrição alguma ao escrever-te isso. Ao contrário, senti-me ampla, liberta, sem marcações nem fronteiras. Apenas um imenso sentimento que se percebe o começo, mas que os olhos não alcançam o fim. E eu continuo sendo aquela que te ama e te adora, mesmo que essas palavras não traduzam o que eu sinto de verdade. Mesmo que você não mais acredite no que eu digo. As palavras têm vida própria? Às vezes sinto vontade de matá-las para criar vidas novas.

    E de tudo, por tudo, só sei disto: que te adoro… (poderia acabar aqui, com essas reticências transcendendo ao infinito, mas não!). Ainda tenho muito que dizer. Sabemos e esta é a única certeza: eu vou morrer. Tu também irás. Mas, antes que o fim aconteça, ouça: minha vida ganhou novos significados com a tua iluminada presença. Basta-me que saibas disso. E, por isso, eu sei que só o amor tem o dom de impedir o esquecimento e até mesmo a própria morte. Viveremos até o último minuto no coração um do outro? Assim desejo que seja. Tu também?

    Tenho febre dos teus beijos. Tenho ânsia de tuas mãos. Sofro de amor, mas nem por isso quis deixar de te amar um dia. Pelo contrário. Essa ardência é o que me faz perceber que ainda estou viva, dentro da mornidade dos dias que se arrastam. Deixa-me em estado de latência, como quando se prende a respiração para um mergulho profundo.

    Quando estou contigo, sinto-me como se estivesse dentro de um silencioso hiato. É como se tu me retirasses da realidade, cronológica e concretamente falando. Sinto-me fora de tudo o que me pertence, de tudo o que me prende. Então sou tua. E isso é o que mais me agrada ser.

    Acredite: de todas as lembranças que me ocorrem, nesses momentos de melancolia longe dos teus olhos, a que mais me agrada é aquela em que tu enxugas as minhas lágrimas com beijos molhados de ternura. Sim, essa imagem eu trago comigo sempre que a tristeza me cerca e me faz verter novas lágrimas. Penso: “Agora posso chorar, porque ele sabe o gosto que tem a minha saudade”. E choro um choro manso, porque sei que não há como me revoltar de tua ausência.

    Guardo tudo que me deste em silêncio. Sim, esta frase ficou ambígua e foi de propósito. Como é de propósito a forma desordenada que te escrevo. É que o fluxo dos meus sentimentos pensados, quando trazem a tua imagem, fica assim: caótico. Deliciosamente caótico! Amar-te, enfim, é isto: um perder-me por completo, até esvanecer. 

Com todo o meu amor,

Tua Moça.

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Clepsidra…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava.

[Mia Couto]

Cheguei. Estou no limite máximo,
no lugar onde o ar dos pulmões é irrespirável
e o tempo é um caos de eternidade…
(Coleciono silêncios em mim.)

Aqui estou…
Ruminando o meu romantismo tolo
e repugnando os símbolos
que pairam sobre mim.
Ignoro-os todos!
Minha paciência é curta para este fim…
(Escondo-me de mim
para não me saber mais.)

Carrego nos ombros a graça do amor
e nos olhos amarguras infinitas de bem-querer.
Esgoto em mim todos os venenos
e afago com violência os dias não vindos.
Minha essência está no passado…
O futuro me dá náuseas –
é irônico comigo.

Estou suja de angústias.
Banho-me no lago de Vênus…
Não quero crer que a tristeza, agora,
seja o melhor de mim.

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Pano de fundo…

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Desconheço a autoria da Imagem.

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar…

[Alice Vieira]

O cenário é transitório, mas desde muito tempo, não. A paisagem tem sido a mesma, o mesmo fundo marcado com rachaduras espessas, umas árvores sem folhas, um céu acinzentado e uns pássaros entristecidos. Uma penumbra de sonhos misturada à minha incapacidade de olhar para outros lados, de pertencer a outros mundos. Acordo gemendo medos e percebo que as unhas foram roídas. Não sei onde estou, além de imaginar que um dia já estive em mim. Eu sempre pensei que chegaria este momento, mas nunca pude escolher quando viria. O vento frio faz parecer que tenho febre, mas é só uma tristeza antiga, embaçando a visão do dia. E me sinto frágil, como nunca antes, mas sei que não tenho tempo para desmoronar ou desistir. Sinto uma vontade mansa de acordar num cenário mais colorido, talvez um que emanasse perfumes e delicadezas, onde eu pudesse ouvir outros sons de pássaros… Quem sabe, assim, eu poderia acordar a luz dos meus olhos para outras eternidades. 

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Palavras…

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Desconheço a autoria da Imagem.

(…) e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

Minha vida medida
em palavras abandonadas.
Palavras que leio em livros,
que escrevi em cartas,
que ouvi com amor, com ódio,
com tristeza e alegria. Com dúvidas.
Palavras em canção, sem rimas,
sem asas ou chão, negras e coloridas.
Apenas palavras… muitas, densas.
Incapturáveis.

(…)

Eu prenderia o tempo
– palavra incurável –
no meu pensamento
já que não há outro lugar
onde eu poderia me deitar contigo
e descansar o sono justo
dos que nada mais esperam.
E seu sorriso dourado iluminaria,
sem sombras, o meu desespero.

É que consentir a própria morte
e, depois, renascer todos os dias,
não é tarefa das mais simples, mas,
não sei porquê, me proponho a fazer.

Há dias em que eu sei que estou
verdadeiramente vivendo.
Em outros, não passo de um ausente no mundo,
olhos perdidos no vão do tempo,
escuro lamento de ser
sem ter sido nada, nunca.

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A noite mais escura…

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Desconheço a autoria da Imagem.

eu não sabia
ou talvez já o tivesse esquecido
como podem ser mortíferas as cinzas
das palavras que um dia tiveram asas…

[Alice Vieira]

     Era dia, quando ele chegou. Trazia nas mãos um par de livros e, nos olhos, alguns poemas de amor, que nunca haviam sido escritos. Ele chegou e era dia, um dia qualquer, de um mês que não se sabe, mas o ar carregava o cheiro da chuva e o perfume de todas as rosas que se abrem para receber a luz, só por prazer.

     Ele chegou e era dia, mas ela nunca saberia dizer quem brilhava mais: o sol ou o seu sorriso. Ele chegou e era dia. Dia de entender o amor e seus desencontros. Era dia de compreender que o amor não sabe de limites, não se submete ao tempo certo das coisas, fala seu próprio idioma e ai de quem insiste em falar outra língua, que não a da loucura.

     Ele chegou e era dia, depois de ela ter a certeza de que só existia sombras. Ele trouxe o sol e fez com que ela brilhasse por dentro, aqueceu seu espírito faminto e acolheu suas asas já esquecidas. Ele deu a ela uma nova chance de voar, mas ela se assustou com tamanha liberdade. Ele chegou para dar a ela toda felicidade que ela julgava não existir.

    Ela teve medo de não merecer tudo aquilo e, então, numa tarde fria, ele foi embora. Ela se entristeceu e apagou todos os sonhos dos olhos de infinito. Chorou rios que ninguém viu. Morreu, cada vez que viu o sol nascer de novo, na linha invisível do horizonte que separava, agora, o passado do presente. O futuro não existiria mais.

     Abismos foram se espalhando, aqui e ali, até que ela perdeu a chance de ver qualquer luz, mesmo que artificial. Só lhe sobrou a escuridão do medo e a dor da ausência. Ela perdeu o sorriso, seu jeito com as palavras e a docilidade do olhar. Ela se tornou, de novo, a noite mais escura. Ele, continuou sendo o dia mais bonito que já existiu.

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templo

Desconheço a autoria da Imagem.

eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar…

[Alice Vieira]

Esperei que, como doença,
a dor passasse.
Não passou.

Esperei por aqueles olhos,
por aqueles ouvidos.
Mas ninguém viu, nem ouviu nada.

(O silêncio é pesado
quando ainda há palavras
suspensas no ar…)

Era aquela voz que dava vida aos poemas
que carrego no ventre das mãos,
presos no fundo dos olhos.

(Agora, tudo nasce morto,
não há rimas adequadas
e, só por isso, resolvi calar…)

Aquela voz era Deus
e só por Ele eu existia.
Já não existo mais…

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