Tenho pena dos dias que morrem assim…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável.
Muita coisa importante falta nome.

[Guimarães Rosa]

     A noite pesa-me, com seu manto escuro de incertezas. Deusa dos sonhos e impossíveis, ela me atormenta, me tortura.  A noite é uma cela pintada de estrelas, para enganar os sentidos do absurdo. E me dói estar presa a esse pesadelo bonito. E me dói viver e morrer, todos os dias, assim. Tenho vontade de partir, de partir para nunca mais voltar, porque cada vez que voltei, era um encontro com o desconhecido.

     A noite me dá náuseas. E o vômito é uma poesia fisiológica de tudo o que abomino. Esse ar morno, fétido, nada sabe de brisa. Esse tempo, que não se sabe ao certo se é primavera ou verão, nada sabe das flores. Esse tédio de tudo, porque tudo é um tédio infinito e sem perdão, porque não há culpados. Um cansaço de ser tanto e tão pouco. Ouça: apague a luz, tranque a porta e faça silêncio. Por tudo que é mais sagrado, silêncio! A noite veio e arrancou de mim a máscara da esperança. Restaram umas órbitas vazias, onde habitavam os olhos. E não há lágrimas… só uma tristeza, que ninguém sabe nomear.

     E eu renego. Queria, agora, morrer com a inocência de quando nasci. Não se pode sofrer quando se ignora todas as coisas e o mundo parece ser apenas o que é: um lugar frio e inóspito. Mas eu queria ignorar todas as coisas que sei agora. Queria morrer sem saber de nada, feliz como os tolos são, porque não sabem de nada. Ignorar é o melhor caminho para a felicidade. E eu não ignoro nada! Apenas gostaria de apagar todo o indício de consciência. Arrancar a minha espinha, como se faz a um peixe morto, e, com ela, que fosse embora toda a minha consciência de ser, já que nada sou.

    É que a vida sempre me doeu fisicamente, como uma queimadura, deixando a pele exposta a todo tipo de penúria. Mas eu não consigo mais chorar. Nem dormir. A noite me abraça no esquecimento de tudo. Apaga-me de mim e, então,  eu já não existo mais. Não há mais sofrimento… nem nada. Tudo se fundiu à noite escura e ao silêncio que se perpetua…

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