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Jarek Kubick

Ouve, tu que não existes em nenhum céu:

Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos menos eu.

[José Gomes Ferreira]

     E vou me doendo por dentro: mãos, olhos, boca, órgãos, memória, alma. Tudo dói na ausência da luz. E sinto falta da chuva, daquele barulho infernal no telhado, despertando a vida que existe em mim, mesmo quando me vejo escoar pela enxurrada. Acordei um deserto. Ao tocar os pés no chão frio do quarto me senti um estúpido milagre. Como posso ter sobrevivido à essa noite? Agora saio de encontro a luz do dia que me fere os sentidos. E vou, cumpridora das obrigações e dos deveres diários, resiliente. Meus sentimentos são apenas um amontoado de erros confusos. Abro as asas, mas não voo, não me movo mais, nem quando respiro. O silêncio me habita por completo e me dou conta de que sou só uma vã criação de Deus, habitando a Terra. Sou o momento que ainda não aconteceu, nem irá. Um percalço do percurso, um erro de trajetória, a má formação de um sonho, uma ficção de mim mesma. 

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4 respostas para

  1. Mariana Gouveia disse:

    ai, meu Deus!

    Curtido por 1 pessoa

  2. magnífico!!!! ai, meu Deus! como é lindo!!!

    Curtido por 1 pessoa

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