A imensidão do teu quintal

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O quintal ampara minha solidão,
acolhe as dores que rompem as horas prolongadas no escuro.
E a vontade de grito rasga o silêncio…
[Mariana Gouveia]
       Querida M.
.
      Preciso te contar um segredo: tenho visitado o teu quintal, todos os dias. É quase um ritual – desses que tu tão bem compreendes – talvez, seja uma fuga de tudo, de mim. Por isso, peço que me perdoe, afinal, não é uma fuga qualquer. Talvez eu devesse tê-la avisado, com certa antecedência, que eu me apossaria, por algum tempo, ao longo dos meses, desse espaço mágico que cultivas com tanto esmero. De certa forma, eu tive medo de te incomodar, de causar alguma distração de pensamento, de quebrar o teu silêncio, que soa como oração por entre as árvores.
     Dia desses, senti a chuva me encharcar a alma, enquanto percorria os caminhos da enxurrada pelo teu jardim. Já reparaste nos rios que nascem no teu jardim? A propósito, as flores que plantaste estão absolutamente belas. E, andando assim por elas, me senti dentro de uma pintura de Monet. Tantos tons de lilás e o vermelho a gritar o outono… eu me emociono ao falar do teu jardim. Tem cheiro de eternidade…
      Porém, o que mais gosto é de admirar os pássaros e os pequenos insetos que habitam este teu (uni)verso. Tu não vais acreditar, mas ontem mesmo, uma borboleta me contou como é viver tendo a proteção de tuas mãos. E um bem-ti-vi atrevido cantava alto, uma canção que ele mesmo compôs para os dias de tua tristeza. Observei também que o teu quintal é belo na umidade da chuva, mas eu acredito que prefiro vê-lo nos dias de sol. A luminosidade desenha as árvores, no alto do céu, o que me faz lembrar dos teus bordados.
     A propósito, daqui de fora, sinto o cheirinho gostoso do chá e dá para imaginar a quentura do fogão de lenha, aquecendo toda a casa. Certa vez, fugi de mim e fui cair no teu quintal, em plena madrugada. A lua estava esplêndida e eu fiquei por horas, admirando aquela paisagem que eu tanto conhecia, mas agora, à luz da lua. As sombras marcavam texturas de todos os tipos. E, quando rompeu a aurora, foi o momento mais mágico de todos. Já percebeste o encanto do teu quintal no primeiro raio de luz? As cores ficam mais desbotadas e a paisagem lembra uma fotografia antiga, de um lugar onde se guardam os deslumbramentos… Penso que seja assim, a tua gaveta de guardados. Tenho certeza que é lá que tu guardas os teus escritos também.
      Espero encontrar-te, numa dessas minhas fugas, embaixo do pé de flor. Seria ótimo tomar um chá contigo e ouvir-te contar, em poesia, o que cantam os passarinhos em todas as estações da vida. 
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        Com carinho,
        Tríccia.
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10 respostas para A imensidão do teu quintal

  1. Chronosfer disse:

    Tua palavra é ninho e voo, cais e barco, vida e viver. o meu abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mariana Gouveia disse:

    Triccia, menina coração…
    Li emocionada sua resposta e me senti gigante diante delas.
    O meu quintal é seu também…
    Aposse-se dele. Te envolvo dentro do meu abraço.
    Com carinho enorme e gratidão.
    Beijo

    Curtido por 1 pessoa

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