À noite…

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Desconheço a autoria da Imagem.

encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar.

[Renata Correia Botelho]

 

     A noite pesa-me com seu manto escuro de incertezas. Deusa dos sonhos e impossíveis, ela me atormenta, me tortura.  A noite é uma cela pintada de estrelas, para enganar os sentidos do absurdo. E me dói estar presa a esse pesadelo bonito. E me dói viver e morrer, todos os dias, assim. Tenho vontade de partir, de partir para nunca mais voltar, porque cada vez que voltei, era um encontro com o desconhecido.

     A noite me dá náuseas. E o vômito é uma poesia fisiológica de tudo o que abomino. Esse ar morno, fétido, nada sabe de brisa. Esse tempo, que não se sabe ao certo se é outono ou inverno, nada sabe das flores. Esse tédio de tudo, porque tudo é um tédio infinito e sem perdão, porque não há culpados. Um cansaço de ser tanto e tão pouco. Ouça: apague a luz, tranque a porta e faça silêncio. Por tudo que é mais sagrado, silêncio! A noite veio e arrancou de mim a máscara da esperança. Restaram umas órbitas vazias, onde habitavam os olhos. E não há lágrimas… só uma tristeza, que ninguém sabe nomear.

     E eu renego. Queria, agora, morrer com a inocência de quando nasci. Não se pode sofrer quando se ignora todas as coisas e o mundo parece ser apenas o que é: um lugar frio e inóspito. Mas eu queria ignorar todas as coisas que sei agora. Queria morrer sem saber de nada, feliz como os tolos são, porque não sabem de nada. Ignorar é o melhor caminho para a felicidade. E eu não ignoro nada! Apenas gostaria de apagar todo o indício de consciência. Arrancar a minha espinha, como se faz a um peixe morto, e, com ela, que fosse embora toda a minha consciência de ser, já que nada sou.

     É que a vida sempre me doeu fisicamente, como uma queimadura, deixando a pele exposta a todo tipo de penúria. Mas eu não consigo mais chorar. Nem dormir. A noite me abraça no esquecimento de tudo. Apaga-me de mim e, então,  eu já não existo mais. Não há mais sofrimento… nem nada. Tudo se fundiu à noite escura e ao silêncio que se perpetua…

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6 respostas para À noite…

  1. Se eu soubesse escrever, tinha escrito exatamente isto. Triste, sereno e profundo: como a noite. Lindo, Tríccia…

    Curtido por 2 pessoas

  2. Lindo e reflexivo como a noite…

    Curtido por 1 pessoa

  3. Mariana Gouveia disse:

    Só suspiro! Respiro!
    Ah!

    Curtido por 1 pessoa

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