LUMINESCÊNCIA

criança poeta

Desconheço a autoria da Imagem.

{Toda criança é um pequeno poema,
sem rima, nem métrica.
Toda criança já nasce um poeta.}

***

   Percorreu todo o trajeto no escuro. Os grilos faziam serenata e a única luz era a que vinha da lua, toda cheia de si, lá no alto do céu. Não sabia bem o porquê, mas não tinha medo. O escuro era apenas a ausência do sol, que agora dormia feliz, lá no pé da montanha.

   Pequenos sapos pulavam aqui e ali, assustados com a presença espevitada dela. Estava obstinada em alcançar aquelas minúsculas criaturas que ora brilhavam, ora se apagavam entre a vegetação, numa espécie de jogo de esconde-esconde. Divertia-se.

   Por um momento, parou ao pé de uma grande árvore que, agora, tinha suas folhas pintadas de preto. Em silêncio, ouviu os sons da noite e compreendeu as estrelas. A noite era uma mulher muito bonita e séria, que tinha infinitos diamantes num longo colar. Sorriu e outro vaga-lume passou bem perto de seus olhos. Ela adorava captura-los para observar como se acendiam, pequeninos, na palma de sua mão. Depois os soltava sem demora, só para vê-los dançar de novo no escuro. Eram assim todas as férias na fazenda do tio.

   Durante o dia era ainda melhor. Havia um rio, que passava nos fundos da casa, aonde ela ia se refrescar todas as manhãs. Tinha uma cachoeirinha que cantava um chuá gostoso de se ouvir. Não sabia nadar, mas nunca se afogou. Dava seus mergulhos e, às vezes, por se aventurar fundo demais, bebia um pouco de água que saía pelo nariz, mas ela achava graça e assim passava o dia. Era quase feliz. Felicidade escolhe idade?

   Recordava sua infância ora como se fosse a mais feliz de todas, ora como se houvesse um grande buraco, um imenso vazio que a fazia sentir saudades de coisas que ela não sabia exatamente o que eram. Teria sido incompleta a vida inteira? Morreria assim, com esse abismo cravado no peito?

   Fechou os olhos e se lembrou do dia que provara um inseto. Era um besouro, da cor mais verde que os seus olhos já viram. Um verde assim brilhante, salpicado de azul clarinho, que dava a ele um aspecto de importante entre os outros besouros. Comeu sem dó. Mas ele durou pouco em sua boca. Cuspira-o longe e, com as duas mãos, limpava a língua freneticamente. Foi quando descobriu que a cor verde era amarga. Teria seu olhar o mesmo sabor?

   Desde pequena gastava seu tempo refletindo sobre o que não tinha importância. Foi assim quando descobriu que os seres humanos (e tudo o mais que existia) habitavam a superfície da Terra. Não sabia explicar o medo que sentiu, pois sempre achou que estava dentro da Terra, protegida de todo o espaço e seus ataques, como se estivesse no ventre da mãe. Era isso, a Terra estava grávida de todos nós e, por isso, nada de ruim poderia nos acontecer. Mas agora sabia que estava rodando a uma velocidade inexplicável, presa ao chão não pela vontade dos seus próprios pés, mas por uma lei chamada de gravidade, e que estava sujeita a todo tipo de objeto não identificado vindo dos céus sobre sua cabeça.

   Teve um princípio de pânico. Passou dias trancada em seu quarto, esperando o fim. Depois lhe explicaram que a vida, desde muito tempo, era assim, e nada acontecera de ruim. Ela então deixou seu quarto e até se animou a examinar com mais cuidado o céu, na esperança de ver algo além de estrelas. Esse excessivo medo do desconhecido nunca mais a abandonou. No entanto, aprendeu que não há melhor forma de lidar com o medo senão encarando-o. E ela, desde muito pequena, gostava de olhar nos olhos.

   Quando criança nunca quis ser artista de novela, nem cantora, nem nada. Quando perguntavam: o que você vai ser quando crescer? Dizia: “Vou ser passarinho”. Ninguém entendia, mas logo tratavam de aborrecê-la: “Ninguém cresce e se torna passarinho, menina! Isso você nunca vai poder ser”. E ela chorava escondida. Tinha ouvido falar que, quando se torna um adulto, pode-se ser e fazer o que bem entender. Então, por que ela não poderia ser o que bem queria?

   E queria ser pássaro. Tinha uma necessidade absurda de ter asas coloridas e ganhar os céus num voo de giros e piruetas, como fazem as bailarinas, só que no céu. E poder beber flor? Ah, ela queria muito ter uma boca feito a do beija-flor, para poder provar o que tinha lá dentro das rosas. A flor vermelha tinha um gosto mais doce que a flor amarela? Cismava…

   Os piores dias de sua infância foram permeados pela presença da morte. Experimentou esse sentimento fortemente por duas vezes. Na primeira vez, a morte veio diretamente de suas mãos. Um primo mais velho colocara uma espingarda de chumbinho em suas mãos. Ela, ingenuamente, apontou para o alto e disparou. Caíram juntos, mãe e filho, de um ninho pequenino, lá do alto da copa. Ela se sentiu tão horrorizada, como se houvesse matado alguém de sua própria família. Chorou por dias e nunca mais se perdoou. Também nunca mais quis brincar com armas, nem as de brinquedo.

   Na segunda vez, a morte veio em forma de uma tristeza mais profunda e duradoura. Levou um tio, o que ela mais gostava. Foi difícil olhar para ele, imóvel, dentro daquela caixa imensa de madeira, feia e cheirando a choro, sabendo que ele ficaria para sempre preso ali, sozinho. Sentiu medo pelo tio e, ao mesmo tempo, se sentiu inútil, pois nada poderia fazer para ajuda-lo dessa vez. Não podia ajudar como fizera certa vez, aguando as plantas do quintal quando ele estivera doente… (agora ele seria a própria planta, dentro da terra, no fundo imenso de um buraco escuro).

    Sabia que iam jogar terra por cima dele e que ninguém nunca mais o tiraria de lá. Alguns diziam que ele estava dormindo, mas ela sabia que era mentira, pois o chamara muitas vezes e ele não respondeu. Então saiu da casa correndo, chorando um choro que nunca havia experimentado, na certeza de que nunca mais ia vê-lo de novo, sorrindo e cantando. Como poderia existir uma coisa assim, tão doída, tão ruim? Com que direito se tira alguém de nossas vidas, alguém que amamos, assim, simplesmente os tira de nós e pronto? Não compreendia o “nunca mais”… O nunca mais era um lugar muito, muito longe, que só a saudade conseguia alcançar.

   Depois desse dia, sua vida mudou completamente. Todos os dias, se perguntava se era o dia em que ia morrer também, porque sua mãe lhe disse que só Deus sabia quando era o nosso dia de morrer. “Despreocupe-se”, disse ela. “Você é muito nova para morrer”. Então, seriam primeiro os mais velhos? Como ia fazer sem sua mãe, sem seu pai, sua avó?

   Todo dia, se despedia do pai e da mãe como se fosse vê-los pela última vez. Ia para a escola e fazia tudo como se fosse a última vez. Passou assim muito tempo, se preparando para a morte, até que um dia se esqueceu dela e foi viver. Então morreu para dentro. Parece que a vida tem mais sentido quando a gente entende que ela acaba num piscar de olhos. Parece que as pessoas a nossa volta ganham mais importância quando lembramos que elas vão morrer.

   Então, passou a viver como todo mundo vive, buscando ser alheia a essas questões de existir. Cresceu assim, como todo mundo cresce, mas, mais para dentro do que externamente. No entanto, essas questões sempre retornaram à sua mente, como se fossem processos dos quais ela não poderia fugir.  E, até hoje, ela se questiona do porquê de existir.

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8 respostas para LUMINESCÊNCIA

  1. Mariana Gouveia disse:

    Para voar… é o que me diz o manual…
    Muita lindeza junto…

    Curtido por 1 pessoa

  2. João Gilberto Saraiva disse:

    Ótimo texto! Me trouxe o sabor da infância e dos dias em que a cabeça é povoada de perguntas sobre a vida e café!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Lunna Guedes disse:

    Me lembrou uma personagem com a qual convivi uma ‘vida inteira’. As linhas pareciam um prólogo para sua caminhada. bravo

    Curtido por 1 pessoa

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