Gostava de falar de si na terceira pessoa do singular…

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Lora Zombie

{Gostava de falar de si na terceira pessoa do singular,
no pretérito imperfeito, que era o que mais combinava com ela.
Se pensava no futuro? A todo o momento, mas preferia não tocar naquilo que era intocável.
Quanto ao presente, estava ainda descobrindo-o.}

***

     , passeava e se perdia em seus deslimites e fronteiras, tão espantada quanto agradecida, em meio a todas as frestas e superfícies que ela mesma cultivou ao longo da vida (e que conhecia tão bem!), com base nos erros e acertos do caminho.

     Estava prestes a completar 39 anos e tinha ainda nos olhos um tanto daquela docilidade infantil, daquela esperança feliz que as crianças carregam nos olhos e que um adulto nunca sabe direito o que fazer com elas. Estava feliz? Relembrava, agora, com certa melancolia, que havia vivido muito, mas muito pouco.

     Com um certo orgulho de si mesma, visualizava, uma por uma, as estátuas que ergueu em homenagem a cada erro, para decorar o seu Jardim Secreto de Equívocos, todas, delicadamente esculpidas à dor.  Dos acertos, criou pássaros coloridos e abriu as mãos para que ganhassem os céus e inspirassem quem quer que se identificasse com eles. Mas colecionava muito mais estátuas do que pássaros. Isso era um defeito, mas muito grave? Concluiu que não.

     E não que ela fosse uma pessoa generosa, mas tinha certa humanidade que sentia perdida na maioria das pessoas comuns, como ela. Emocionava-se com muito pouco e se ocupava de reflexões que ela mesma julgava inúteis aos olhos alheios. Isso importava? Definitivamente, não.

     Gostava de se encantar por esses caminhos que ela mesma não sabia aonde iam dar. Refletir sobre coisas e pessoas, imaginar cenários nunca antes vistos. Era feliz observando pessoas que não conhecia e, como se fossem suas personagens de uma crônica cotidiana, dava a elas nomes e recriava suas vidas com a mesma facilidade com que inventava canções. Tinha um dom excepcional para concluir o que não tinha resposta e deixar em aberto àquilo que era óbvio demais. Gastava muito tempo assim, só pensando em coisas que ninguém se ocupava de pensar.

     Quando se cansava dessas reflexões, fechava os olhos e fingia ser outra pessoa, ter outra vida, às vezes uma que lhe agradasse mais que a sua própria e, outras vezes, uma que detestaria ter, só para se sentir mais feliz com a vida que tinha. Depois voltava a pensar, como quem cansa de respirar, mas sabe que é impossível impedir o fluxo de ar pelos pulmões. Sorria de si mesma. Era uma tola. Será que todo mundo percebia isso?

     Ao final de cada dia, ela respirava no mesmo ritmo estéril de sempre. Às vezes, um vento forte lhe forçava a respirar mais do que podiam seus pulmões e ela se sentia muito cheia de vida. Outras vezes, faltava-lhe o ar, como se falta vida a quem quer muito viver e, então, ela se entristecia.

     Era outono de 2017 e ela não gostava de números ímpares, nem dos tons com que esta estação do ano pintava a natureza a sua volta. Tudo parecia estar dentro de uma pintura surreal, emoldurada por seus olhos tristes. Quase nunca alcançava os significados que tanto buscava nas coisas pequenas da vida. Isso, sim, lhe aborrecia muito, porque tinha a certeza de que cada mínima coisa haveria de ter um sentido único. Tudo deveria conter uma espécie de alma, exclusiva e ampla, que conferisse certa singularidade a cada pequena coisa. Estaria louca?

     Tinha uma paixão excessiva pela natureza, em particular pelas árvores e pássaros, e isso herdara do pai. Questionava-se, com frequência, sobre a vida que ali habitava. Quantos ninhos uma só árvore pode abrigar? Quanto de amor cabe num único coração? Às vezes, ela gostaria de ser mais racional do que sintomática. Mas era inútil exigir de si mesma tamanha sentença. Era um ser sinestésico e isso ninguém lhe podia tirar. Sentia, e isso era tudo.

     Assim experimentava a vida e o seu pulsar. Tudo era um pequeno cosmo, dentro de outro maior e assim por diante, e cada coisa se encarregava de ser e de estar, de ocupar a importância necessária a cada ser vivo, humano ou não. Nisso consistia a essência da vida e ela se sentia importante por se saber parte disso.

     Um dia sonhou que era flor. Não qualquer flor, mas uma orquídea perfeita. E só era perfeita porque estava no sonho. A realidade nunca alcança a perfeição, disso ela sabia bem. Foi uma de suas primeiras lições, dessas que a vida se encarrega de ensinar a quem tem a coragem de aprender. E ela aprendeu. Deixou de exigir perfeição em tudo na vida e, desde esse dia, passou a viver melhor.

     Tinha um sorriso torto, mas sempre muito honesto. Isso conferia a ele um certo encanto e um brilho que ela mesma ignorava. Sorria até quando não queria, mas sentia que, ao sorrir, se abria um novo mundo, feito flor, colorindo e perfumando tudo a sua volta. Ela gostava muito de sorrir, porque imaginava que o seu sorriso abria portas e janelas secretas, mesmo nos momentos mais improváveis. Assim gostava de pensar e por isso sorria honestamente, até quando queria chorar.

     Não era inteligente, mas enganava bem com seu olhar atento. Seus olhos, duas pequenas esferas translúcidas, nunca se contentavam com a superfície. Curiosos, deslizavam pelo ar e pousavam mansos nas profundezas das coisas e ali se demoravam. Submergidos, bebiam do silêncio que há na beleza daquilo que habita o desconhecido das coisas. Ninguém nunca poderia saber com que prazer ela sorvia a vida, dentro de tudo aquilo que os seus olhos captavam sem, de fato, ver. 

     Também não era bonita. Seu corpo, pequeno e forte, não possuía a simetria necessária para ingressar no mundo artificial da beleza. Sentia que os anos lhe conferia certa graciosidade, mas não passaria disso. O rosto, cada vez mais marcado por pequenas linhas, dava a ela um ar quase responsável quando séria. E agora, quando se olhava no espelho, quase não se reconhecia. Descobriu, sem muita surpresa, que era muitas mulheres dentro de uma só. E isso lhe dava forças para multiplicar-se ainda mais. 

     Sabia, instintivamente, que ela carregava no corpo a marca do “sempre”, pois tinha uma mania boba de tudo eternizar. No entanto, vivia cercada de “daqui a pouco”. Nunca teve muita paciência para esperas, mas tudo tinha que esperar na vida. Fila para viver, senha para amar? “Agora não pode, tem que esperar a sua vez!” Coisas das quais ela não compreendia… Tanta correria, para se chegar a nenhum lugar. Tanto barulho para confundir o silêncio que é essencial ao coração já barulhento.

     Suas inconstâncias eram tão frequentes que adquiriu um gosto peculiar de rir de si mesma. Fazia isso desde muito pequena. Sentia que dentro dela habitava um animal quase perfeito, mas temia ao extremo deixá-lo a solta. Seria medo de ler nos olhos dele alguma revelação antes de ser completamente devorada? Assombrava-se, mas gostava de alimentá-lo com as próprias mãos. Era bom enfrentar o medo uma vez ou outra, encará-lo fundo nos olhos, sorrir e virar as costas como se nada aqui dentro houvesse mudado.

     Nunca foi corajosa. Era o tipo de pessoa precavida, sempre analisando a situação antes de dar um passo adiante. Nasceu temendo as grandes quedas e, por conta disso, perdeu grandes saltos e belíssimas paisagens. Talvez porque tivesse a certeza de que estaria sozinha na hora de limpar as feridas. Mas, também, quando se decidia pular, não importava a profundidade do abismo. Caía sorrindo, com a alma aberta e já ciente das consequências.

     Odiava a ideia de se sentir sozinha, mas fazia da solidão a sua maior amiga. Paradoxal, porém, compreensível. Alguém que cresceu falando consigo mesma não sente falta de ninguém. Será mesmo? Gostava de se sentir autossuficiente. Isso lhe conferia um certo poder, que nunca tivera de fato. Era mestre no exercício de se iludir.

    Às vezes, sentia a liberdade beijar-lhe a boca e lhe tirar o fôlego, mas era só uma sensação mesmo. No fundo, era uma pessoa presa a tudo e enraizada a todos. Ansiava por ser quem era dentro de si, mas acabava sendo sempre o que os outros queriam que ela fosse. Irritava-se com essa fraqueza de espírito, porque se sabia mais forte do que isso. Onde diabos estava falhando? Talvez fosse apenas o seu jeito tolo de querer cuidar dos outros, antes de si.

     Havia nela uma bondade excessiva, que a fazia agir contra si mesma, incansavelmente. Confiava demais nas pessoas e preferia cortar de sua própria carne a ver o outro sangrar. Não que isso fosse de seu agrado, mas agia assim naturalmente. Depois chorava lágrimas mansas, como as de um anjo caído. No fundo, detestava ser como era. Sentia, também, a necessidade de ver jorrar sangue de um corpo que não fosse o seu, só para sentir mais humanidade nas pessoas. A dor aproxima? 

   Tinha uma sede de vida que pedia inundações. Era insaciável. Diante das impossibilidades, queria ser muito além do que era. Ampla, leve, plena. E no seu coração ela era: pura poesia. Doce ilusão! Bastava silenciar o pensamento para se enxergar abaixo de todas as realidades. A existência é perfeita. Mas a dela, não.

     Sua existência era como um dia de domingo: morno, apaziguado, sonolento. Era o tipo de existência que caberia suspensa num único fôlego… e fim. O que estava fazendo de sua vida? Às vezes se sentia um completo nada. Onde estariam os grandes fatos, os incontáveis feitos? Olhava para dentro de si e nada via. Era ninguém. O reflexo de uma pequena árvore seca que sequer deixaria frutos na Terra.

    Depois de ser feliz o que resta? O que acontece depois? Haveria alguma espécie de vida que pudesse abrandar um coração que amou verdadeiramente uma vez? Perdia-se nesse fluxo de pensamento. Ah, o amor! Essa desgraça gostosa, que aperta e sufoca, que dá sentido e o esgota num piscar de olhos! Amar dá trabalho e requer muita coragem e persistência. Quase ninguém tem tempo para amar hoje em dia. Tempos difíceis esses, pensou ela.

    Silenciou-se. (O silêncio é sagaz, porque não deixa provas). Continuava a não entender nada sobre o amor, mas amava. Com todas as suas forças, amava. Indubitavelmente. O amor era, para ela, como o início da Primavera. Uma explosão de vida e cor. Um labirinto de delícias. Um portal que a levava a todos os lugares e a lugar algum. Uma morte necessária em plena vida. Reconhecia na palavra “amor” um coração aberto, pulsando, apesar de.

    E, para ela, só o impossível importava. Havia obstáculos? Sim, de todas as formas e tamanhos, mas sabia também, em seu íntimo, que o maior dos obstáculos era ela mesma. Conseguiria sobrepor-se a si mesma? A vida não espera o melhor momento para recriar o impossível. Ela mesma precisaria acelerar os passos e criar a atmosfera adequada para que seus sonhos vingassem em calmaria e explodissem num êxtase de cor. Agora, ela tinha pressa…

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4 respostas para Gostava de falar de si na terceira pessoa do singular…

  1. Lunna Guedes disse:

    Nossa, foi quase como ler a mim mesma em algumas linhas…
    Gostaria de publicar esse texto numa revista literária artesanal?

    Curtido por 2 pessoas

  2. Mariana Gouveia disse:

    ebaaa! Você vai estar na Plural!!!
    Adorei!

    Curtido por 1 pessoa

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