Carta

Vonandi Bahr

Vonandi Bahr

{Mesmo implícita, tenho ânsias de escrever-te.
Desenrolo-me em linhas, infinitos parágrafos,
palavras-mito e cruéis verdades.
Sou eu inteira, agora, em primeira pessoa do singular.}

 

***

     Estas palavras que te dou não são para serem lidas assim, num único fôlego. Precisam ser desconstruídas antes de significarem. Sim, eu renuncio a toda espécie de sentido. Quero que atribuas a mim todos os significados que me cabem e também os que me faltam. Desfaço-me em sombras, num jardim inteiro plantado por tuas mãos. Colha-me com os olhos, feito flor pequenina, porque, se ainda existo, é por algum descuido milagroso.

    Liberto-me dos meus erros e me cerco da realidade. Observo-me. Tendo eu apenas as palavras como companhia, sinto-me ininteligível. Mas sei que tu me compreendes até no mais absurdo silêncio. Fazemos parte da mesma prece incauta, aquela que não é proferida nas missas de domingo e que renega o amém. Somos a nossa própria criação. Viemos da mesma essência das coisas: uma verdade (re)inventada. Seria esse o motivo de não cabermos em nós mesmos?

    Transbordo. Mergulho em mim e sou isto: um caldo denso e escuro. E é de dentro dessa substância pegajosa que te escrevo. Pura e simples, com um infinito cansaço refletido nos olhos. Meu corpo cede, consciente, às inconsciências de que sou feita. É que não ouso me ignorar naquilo que de mim não sei.  Embriago-me de dúvidas e desfaleço nos teus braços.

    E se tu ouves a minha voz enquanto lê, é porque sabes da cadência com que pronuncio os meus segredos nos teus ouvidos. Então, deixa-me ser. Deixe-me fluir, líquida, como rio que corre direto para o mar. O teu mar.

(Tenho fotografado o instante em que senti o teu cheiro. Sim, eu o eternizei na memória que compõe os meus sentidos. Quis encher a boca com o gosto da tua pele e, assim, me perfumar por dentro, mas fui incapaz de pensar nisso naquele momento).

    Quero me reconhecer, um dia, naquilo que te fez homem, enquanto ser amado. Desejo estar impressa em teu corpo, feito cicatriz que não passou pelo processo da dor, que não sangrou, mas que existe, assim, gravada, não na superfície da pele, mas dentro de ti. Uma tatuagem do avesso. Sim, é isso o que eu quero ser. Uma marca que não sai, que não se apaga nem com o tempo, nem com a necessidade que um dia possas ter de me jogar nas águas escuras do teu pensamento.

    Quero olhar nos teus olhos e me encontrar ali, inteira, nua e sem medo, como se tu e eu fôssemos um, cercados de nós. E quando perguntarem a mim “Quem é você?”, responderei sem ter que pensar duas vezes que sou parte de alguém muito maior. Complemento e redenção. Sou tua carne e tua vida. Tua morte e teu perdão. TUA, simplesmente.

    Ah, eu poderia me habituar à felicidade! Seria como uma espécie de prêmio? Não sei, mas, sim, eu poderia facilmente me habituar à felicidade, como o pássaro se habitua ao voo, desde que compreende a existência das asas. E poderia sair por aí, de mãos dadas contigo, fingindo que desde sempre fui assim… (completa). Vestir-me dessa alegria é mesmo uma espécie de sonho. E será que eu tenho o direito de sonhar com o impossível? Parece-me que este luxo só é dado aos deuses. Mas tu me olhaste nos olhos e algo em mim se divinizou. Tu me deste asas.

    Quantas vezes terei que me defender, sendo eu inocente? Não, eu não temo as pedras que voam sobre a minha cabeça… Mas, ouça: quero te falar de amor. Preciso te contar do meu amor. Escuta, porque eu não tenho ninguém mais que possa me ouvir. O universo cegou seus ouvidos para mim e eu, detentora de todo o silêncio que persiste, sinto essa necessidade calma de gritar teu nome. Talvez seja porque ele me lembre da palavra AMOR, escrito assim, em letras garrafais. (E porque no teu nome cabe um mar inteiro de amor…).

  Por ti, sou toda amor. E confesso: estou assustada, mas, também, agradecida. Compreendo que depois de um tempo temos que ser responsáveis pelo amor que carregamos no peito. E eu me responsabilizo. Eu te liberto daquela obrigação de ter que ser eternamente responsável por mim, a quem cativaste. Bobagem! Toda a responsabilidade sempre coube a mim, que escolhi te adorar e te seguir com os olhos, tu estando por perto ou não.  Amar é ter o prazer no limite da angústia e, quanto a isso, eu já me acostumei.

    Apenas sinto-me frustrada. Eu posso te dizer: “Eu sou aquela que te ama e te adora como ninguém”. No entanto, as palavras estão cercadas de limites e significados que nunca alcançam, de fato, o que eu sinto. Eu não senti restrição alguma ao escrever-te isso. Ao contrário, senti-me ampla, liberta, sem marcações nem fronteiras. Apenas um imenso sentimento que se percebe o começo, mas que os olhos não alcançam o fim. E eu continuo sendo aquela que te ama e te adora, mesmo que essas palavras não traduzam o que eu sinto de verdade. Mesmo que você não mais acredite no que eu digo. As palavras têm vida própria? Às vezes sinto vontade de matá-las para criar vidas novas.

    E de tudo, por tudo, só sei disto: que te adoro… (poderia acabar aqui, com essas reticências transcendendo ao infinito, mas não!). Ainda tenho muito que dizer. Sabemos e esta é a única certeza: eu vou morrer. Tu também irás. Mas, antes que o fim aconteça, ouça: minha vida ganhou novos significados com a tua iluminada presença. Basta-me que saibas disso. E, por isso, eu sei que só o amor tem o dom de impedir o esquecimento e até mesmo a própria morte. Viveremos até o último minuto no coração um do outro? Assim desejo que seja. Tu também?

    Tenho febre dos teus beijos. Tenho ânsia de tuas mãos. Sofro de amor, mas nem por isso quis deixar de te amar um dia. Pelo contrário. Essa ardência é o que me faz perceber que ainda estou viva, dentro da mornidade dos dias que se arrastam. Deixa-me em estado de latência, como quando se prende a respiração para um mergulho profundo.

    Quando estou contigo, sinto-me como se estivesse dentro de um silencioso hiato. É como se tu me retirasses da realidade, cronológica e concretamente falando. Sinto-me fora de tudo o que me pertence, de tudo o que me prende. Então sou tua. E isso é o que mais me agrada ser.

    Acredite: de todas as lembranças que me ocorrem, nesses momentos de melancolia longe dos teus olhos, a que mais me agrada é aquela em que tu enxugas as minhas lágrimas com beijos molhados de ternura. Sim, essa imagem eu trago comigo sempre que a tristeza me cerca e me faz verter novas lágrimas. Penso: “Agora posso chorar, porque ele sabe o gosto que tem a minha saudade”. E choro um choro manso, porque sei que não há como me revoltar de tua ausência.

    Guardo tudo que me deste em silêncio. Sim, esta frase ficou ambígua e foi de propósito. Como é de propósito a forma desordenada que te escrevo. É que o fluxo dos meus sentimentos pensados, quando trazem a tua imagem, fica assim: caótico. Deliciosamente caótico! Amar-te, enfim, é isto: um perder-me por completo, até esvanecer. 

Com todo o meu amor,

Tua Moça.

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4 respostas para Carta

  1. Republicou isso em bemsabemos, o Blog da Annae comentado:
    A Carta. O Amor. Domínio absoluto da expressão.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mariana Gouveia disse:

    Você sabe o quanto amo cartas… Até já trocamos uma virtual e te enviei uma.
    Linda carta!
    beijo

    Curtido por 1 pessoa

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