Ínfimo…

 

mariposas

Desconheço a autoria da Imagem.

{É no despertar dos olhos
que a singularidade se apresenta
ora calma, ora violenta,
mas, sempre, com uma suprema magia.}

***

     Fico de longe me observando pensar na fragilidade da vida. Coisas se chocam o tempo todo, como partículas no espaço, e ninguém se dá conta do tamanho do espetáculo! Pessoas também colidem o tempo todo, mas poucas percebem a dimensão do impacto. É que a realidade ofusca os olhos para essas pequenas chamas espetaculares. Oprime as sensações e nos faz perder a nossa melhor identidade: a de sermos observadores do ínfimo.

     Sim, a realidade nos delimita e isso é uma ofensa. Escraviza-nos, numa roda que gira e gira, nos prendendo no urgente, nos sufocando com o que quase sempre não tem importância. É como se estivéssemos presos no agora das coisas, vivendo apenas para isto: não ser nada e, no entanto, sermos obrigados a seguir (obedientes) o fluxo do nada. Perdemos muito da vida, porque a vida está fervilhando naquilo que os olhos (apressados em não ser) deixam de perceber.

     Cada um de nós tem olhos que não consegue usar. Os olhos são o espaço mais profundo que existe entre o eu e o mundo (e cabe muito nesse intervalo). Então, a grande responsabilidade disso é de quem? Qual foi a última vez que você se viu respirando? Sim, que você sentiu, verdadeiramente, o ar percorrendo o caminho direto aos pulmões, o fluxo sanguíneo ligeiro pelas veias, atravessando secretamente o seu coração e ouviu atento aquele ruído líquido que nos indica que estamos vivos numa explosão? Consegue sentir o caminho doloroso que o sangue faz pelo corpo inteiro, até chegar de novo ao ruído líquido que te faz se sentir vivo?

     Ninguém tem tempo para isso. Estamos todos rodando e rodando nessa máquina sem sentido. Estamos cronologicamente fadados à morte e, em recompensa, temos uma vida historicamente herdada, mas que de fato nunca nos pertenceu. Este é o grande mistério! E não há novidade alguma em minhas palavras. Todos nós vivemos de acordo com este pacto esquisito e nada fazemos para mudá-lo.

     Passamos a vida nos perguntando quando vamos aproveitar a vida, enquanto ela se evapora rápido demais, girando e girando, no mesmo sentido, rumo ao grande nada. É preciso entender a fundo a violência que é a ausência da vida, enquanto ainda se vive. Há tanta vida sendo desperdiçada!

     Perdoe-me por repetir tanto a palavra vida, mas é que a vida não tem sinônimos.

.

.

.

(Uma pausa nos giros,
enquanto observo um pouco a minha pequena existência
contaminada pela ausência de tempo…)

     Depois que perdi o medo de olhar o ínfimo, aprendi a viver um pouco melhor. Com dificuldades, reconheço, porque também giro e giro nessa roda maldita… Não tenho tempo! Mas fui perdendo gradativamente o medo da assimetria das coisas, aprendendo a admirar outras pequenas paisagens, em curtos intervalos de tempo. Ganhei muito reconhecendo o feio e o indizível. Aprendi a admirar a desordem e as dissonâncias. Cores não catalogadas e insetos repugnantes. Sinto-me em casa quando me encontro com as coisas pequenas da vida. Vejo-me nelas, como parte inegável de suas estruturas mínimas.

     Eu sou isto: quase uma rachadura no chão, quase um verme que come a fruta podre, quase uma flor que nasce por entre frestas, quase poeira sob um móvel em desuso, quase gota de sangue de uma ferida que não se cura, quase uma aranha que tece sua teia num canto escuro da casa, quase uma página de um livro que se perdeu, quase um caco de um espelho partido, quase um verbo, quase um fôlego, quase um segredo, quase… Eu não me resumo, mas, inteira, não consigo habitar o mundo. Apenas sou e sou do tamanho que eu me imagino ser: assim, pequena. Nem por isso desimportante. Nem, contudo, essencial. Apenas existo, como existem as coisas miúdas que ninguém se dá conta…

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8 respostas para Ínfimo…

  1. Traz um verso disse:

    Que prosa bonita! Importante também sentir que mesmo sendo coisa miúda, somos parte do gigantesco.

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  2. João Gilberto Saraiva disse:

    Nada como os passeios interiores de Triccia, um trem que segue circundando a alma e o corpo, o belo e o feio, a vida e a morte.

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  3. jorgesapia disse:

    Lindo seu blog. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Mariana Gouveia disse:

    Muito lindo!

    Curtido por 1 pessoa

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