Dois abismos…

Jarek Kubicki4

Jarek Kubicki

{O mau de sentir intensamente, como eu sinto,
é que qualquer ato simples, como recordar-te,
me causa  dor, me faz querer chorar.
Somos dois abismos, fadados a mirar o mais alto céu
e desejar o salto, o voo, o absurdo do sonho.
Estamos fadados a nunca acontecer.}

***

Daqui, de onde me encontro, percebo que sempre estive à margem daquilo que me pertence. Não por falta de vontade ou por opção, mas creio que por uma espécie de merecimento. Considero a vida um ato de coragem que, a mim, me falta. Sempre me faltou coragem para tudo.

Sento-me à sombra dos meus medos e espero cantando, quase sempre com vontade de chorar, que alguma outra porta bem grande e iluminada se abra a minha frente, como uma espécie de sonho ou alucinação e que me faça sair daqui, para algum lugar bonito. Em vão.

Entendo que não há outra realidade além daquela que envolve o que sentimos. E o que sinto é muito. Os sentimentos são um caminho, muitas vezes, sem volta, de uma compreensão maior de tudo. E é nessas horas, vazias e de extremo silêncio, que me entorpeço de uma tristeza aguda que beira à loucura.

Ouço o som da minha própria voz e ela parece não me pertencer mais. Está tão longe de mim esse grito sem som, mas que eu ouço, insistentemente. E só ouço porque é meu grito interior. Estou alheia a tudo e tudo parece estar se equilibrando na superfície fina e, por isso, perigosa, que me separa do mergulho final. Sinto-me sem ar, logo eu, que pedi tão pouco à vida, que perdi tanto na vida. Ar…

A noite toma o quarto e escureço. Pesa-me saber que existo, aqui, sozinha. A solidão nunca me caiu bem e agora, que a noite toma o dia, e que ela vem sorrateira me fazer companhia, sinto-me miserável. Não sei pedir nada a ninguém, muito menos o necessário, muito menos amor.

E amo, indubitavelmente, amo. Talvez, e só talvez, este amor nada mais valha, aos olhos que me observa sem agora me entender. E eu digo: é só a minha alma transbordando, nua e estúpida. Nada mais. Não precisa ter medo. Mas, um amor assim, merece a indiferença das estrelas, numa noite como esta? Um amor, assim, de adorar…?

Tudo em mim é sentimento. E o que significa isso? Nada e tudo. Todas as palavras que tentam traduzir, em vão, o que eu sinto são, portanto, apenas palavras. Estúpidas palavras que significam tudo o que sou: nada. Por isso confusas.

Eu sou assim, tola e sensível, violenta e impulsiva. Trago comigo sentimentos nobres e vis, que se intercalam sem o menor pudor. Tudo em mim tem essa estranha tendência de vir à tona, um nascer de ave, um brotar no peito, sem sossego. Não faço por mal. É meu jeito de ser… Humana. E que, aviso, não me agrada muitas vezes. No entanto, não há como negar a substância da alma e não há como amar em mim só a metade positiva que me compõe e te completa. E, no fim, tudo não é sentimento, seja bom ou ruim?

Carrego, a duras penas, os meus defeitos, pois não posso abandoná-los à beira do caminho. Eles também desenham a minha alma e, por isso, talvez precisem (e mereçam) mais cuidados. Mas tudo isso que te digo deve ser apenas uma reflexão fútil, de sentimentos sem sentido. De resto, com quem posso contar agora, senão, com o que eu sinto?

Tento compreender como cheguei até aqui e desisto. Não há razão nem lógica no que sinto, nem no que escrevo, muito menos no que faço. Eu apenas sinto. O que escrevo são só lamúrias de uma alma magoada e triste, que não aprende a ser indiferente às inconstâncias do amor. Lamento. Seria bom poder ser eu mesma, sem condições, e deixar-te ser igualmente assim. Mas e se às vezes não consigo? Essa ainda sou eu, com minhas falhas e defeitos. Menos compreendida por isso?

Por um momento, queria eu poder sorrir de tudo isso, como se fosse uma grande piada. Mas não consigo. Pesa-me o choro nos olhos e sinto essa vontade inútil de chorar. Não tenho mais forças para me revoltar contra o absurdo da vida, os desencontros do amor. Meus olhos, incansavelmente tristes, renegam o brilho que antes te encantou. Creio que esse é o fim da esperança em mim, em ti e nos meus sonhos.

Só queria que tudo fosse menos doloroso. Queria alguma coisa que me fizesse parar de pensar, de sentir. Sinto uma vontade inexplicável de respirar. É como ter as mãos, ao redor do pescoço, sufocando-me o tempo todo. O meu choro, tolo, é um espetáculo sem ruído.

Eu sou a negação dessa noite que se inicia, um avesso do que é necessário, uma aberração. Mundos se formam e passam por mim, inabitados. Atmosferas imperfeitas se formam a minha volta, irrespiráveis. Tudo é pesado demais, triste demais. Soluços marcam o tempo e tudo é tão fundo, tão infinitamente negro e distante…

Um abismo. Ou dois.

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4 respostas para Dois abismos…

  1. Profundamente profundo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mariana Gouveia disse:

    Intenso e lindo!

    Curtido por 1 pessoa

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