Sobre asas e infinitos…

Card87

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Desconheço a autoria da Imagem.

Há um grito de eternidade que ultrapassa o calar da noite
e desemboca nos campos devastados da alma.

[Lucas Nunes]

Quando dei por mim
estava tão submersa nos teus olhos
que longas noites atravessei
sem sequer dormir por um segundo.

(Demência minha,
um escuro tão grande
de invadir saudades…)

Delírios, dos mais insanos,
afugentavam os meus sonhos
e me faziam escrava de um desejo
jamais sentido anteriormente.

Os dias passavam por mim
como passa um sofrimento:
lento, doloroso e antigo.

Derreteram-se as retinas num choro manso
de velas acesas a queimar a pele…
(Amo as feridas, porque me fazem humana).

A dor é tão íntima.
E eu estava morta,
sem necessidade alguma
de uma explicação imaginária.
Morta de amor.
Porque um amor que não se pode viver
é a própria morte em vida.

[Grito]

Sou apenas uma louca
sem definições ou débitos.
Culpas, algumas…
Tenho um vício estúpido:
o de queixar-me de tudo.
Mas como, se fui responsável?

Só o amor sobrevive
depois que o dia vai embora,
que as portas se fecham
e inicia-se a demora.
Só o amor é capaz de viver
depois mesmo da morte.

Ele é o único a sobreviver
– intacto – à solidão.

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Dark Angel

Se me esfolassem agora
encontrariam o teu nome
colado num dos meus ossos.

[Manuel Cintra]

Cravaste, em mim, asas…
Eu, dei-te raízes extensas.
Depois, nos misturamos tanto
que as minhas asas eram tuas raízes
e, teu chão, meu infinito profundo.

(Não sabíamos mais
o que era céu e corpo,
horizonte e precipício…)

Já não sabia onde eu começava
nem onde terminavas tu:
por certo, éramos o amor
personificado no verbo adorar.

Bebíamos da chuva num beijo
e nos lavávamos no mar do desejo
despidos de toda maldade do mundo:
sonhamos em vida e vivemos.

Para sempre entardecíamos
até dar a hora de partir,
mesmo sabendo que éramos
o lugar um do outro, noite e dia.

Contigo humanizei meus gestos
e, em ti, fecundei delírios.
Pari sorrisos que eu jamais
daria à alguém na vida.

E é isso… Céu, luz, asas, sorrisos,
terra, amor, chão, precipício,
trovões, flores, raízes e desejos…
Foi tudo embora contigo,
menos o gosto de eternidade
que deixaste em minha boca.

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Dark Crow

Não temos saudades, 
é a saudade
que nos 
tem.

[Eduardo Lourenço]

 

Dias, sucessivamente, cinzas.
Dois olhos, orquídeas verdes,
exalando dor pelo ar.
Alguém sentiu o perfume…

Selvagem instinto, este,
de devorar as minhas mãos,
porque sinto falta das tuas…
(As tuas mãos, onde estão
as tuas mãos?)

De manhã até o anoitecer 
correm rios vermelhos
por entre veias e artérias 
– hemorragia de angústia.
Tudo em mim grita o teu nome.

E o céu nunca mais será o mesmo
sem a companhia do teu olhar.

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Das coisas que não sei nomear…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Apaga-me os olhos: inda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: inda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso inda invocar-te.

[Rainer Maria Rilke]

      Que nome dar à pele, quando acariciada por alguém que nos acende por dentro o fogo eterno dos desejos? Como nomear o roçar do sol na superfície fina da rosa que habita imóvel o jardim dos sonhos? Que nome se dá ao som das abelhas fecundando as flores da jabuticabeira em pleno inverno? Como nomear o amor que sinto por ti, se tudo o que existe, agora, mora na memória do que fomos um dia?

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Mira Nedyalkova

Mira Nedyalkova

Só quem ama corre o risco de perder.
Os outros correm apenas o risco de continuar perdidos.

[Pedro Chagas Freitas]

Acostumei-me a embriagar as borboletas
que habitam o estômago,
todas as vezes que ouço o teu nome
acordando os átomos do meu corpo.

Nenhuma religião
esclarece a vida de um lírio.
Nenhuma ciência
explica a tessitura de um grito.
Nenhum poeta
consegue fugir de um poema,
depois de ter amado tanto.

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Desconheço a autoria da Imagem.

Antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

[José Luís Peixoto]

 

Preciso que se desestabilize
toda essa estrutura do impossível.
A tua voz inventou um mapa perdido
para os meus caminhos.
É como o canto dos pássaros,
sem endereço nem destino.

Mas o teu perfume sobrevive
na memória do vento.
Persigo o reflexo dos teus olhos
– pigmentos de uma dura sina –
pelo espelho do que vivemos.
Somos uma mesma imagem.

Trago comigo teus beijos
de sondar precipícios e teus poros
para herdarem a minha solidão.
Atravesso toda a nossa história
para pôr, no fim,
reticências em cada palavra…

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