Noell Oszvald2

Noell Oszvald

Tu és a carne
de toda palavra que escrevo.

[Marcelo Roque]

Tape os olhos
o mais forte que puder
porque te gritarei um verso
:
Eu te adoro!

Só você não se deu conta
de que o pensamento
também é carne que se sente,
que se toca e se morde, atiça.

Às vezes eu me equivoco,
mas nunca deixo de evocar
o pensamento em ti. E eu te sinto,
aqui, lá, onde quer que você esteja ou não.

Então, deixa eu te contar…
A fenomenologia da saudade
é o seu nome escrito nas entrelinhas
de um poema tolo. Feito este, agora.

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Tessitura…

Conrad Roset

Conrad Roset

A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho — primoroso e com laço —
dos remorsos.
[Sílvia Ugidos]
Sentou-se à mesa e serviu um café.
Tomou dele um gole reconfortante
e, depois, observou algumas formigas
que carregavam migalhas de pão
com uma motivação que lhe deu inveja.
 
O termômetro marcava 38 de febre
e a temperatura lá fora beirava os 16 graus.
O gato, indelicado, pulou em seu colo
gemendo um miado quase inaudível.
Por um momento,
pensou na abstração dos fatos:
 
E se ela tivesse nascido semente,
ao invés de gente, que fruto daria?
Que cor teriam suas flores na primavera?
Olhou o relógio na parede,
tão abandonado ao tempo quanto ela,
e quis voltar para a cama, de repente…
 
Levantou-se, arrastando com os pés
a pesada sombra de seu corpo
e todo o silêncio
que habitava aquela casa vazia.
Se as paredes pudessem falar
imitariam a voz de um pássaro
que gritava para o céu, lá fora.
 
De que saudade azul ele contava?
Jamais saberia…
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Tempestade…

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Desconheço a autoria da Imagem.

A tempestade que chega
é da cor dos teus olhos castanhos…

Então me abraça forte
e diz mais uma vez que já estamos
distantes de tudo…

[Renato Russo]

Obrigada, por nunca me prometer nada.
Assim, pude entender a dinâmica do amor
que só necessita de estar liberto
para continuar a viver sem condição alguma.
Aprendi contigo que a exigência do amor
é não ter exigência nenhuma.
 
Obrigada, por me entregar às tempestades
(do jeito mais puro e doce: belo)
e me ensinar que sou forte o bastante
para seguir viagem, longe dos teus olhos escuros.
Creia-me, aprendi a ignorar o medo dos raios
e a me guiar por suas luzes.
 
Silenciar-me foi um modo provisório de desistir,
já que o amor, como tu sabes, desconhece a renúncia.
O meu amor é teu, sempre será assim,
ainda que te pareça pouco e imperfeito…
Ainda que te esqueças de mim.
 
Obrigada por me fazer forte,
no momento em que antecede o medo,
e por me fazer compreender a direção dos ventos,
o incendiar de um raio e a bravura nata
das nuvens negras, prestes a explodir em chuva…
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Castigo…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Prendes o mundo
Dentro das mãos fechadas
E o que cabe é pouco
Mas é tudo o que tens

[Mafalda Veiga]

Entregar-me às ausências
foi o jeito que encontrei
de me rebelar contra a saudade.
 
De nada adiantou.
Quem sofre assim
não amanhece nunca mais…
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Meu lugar…

 

Michael Kenna

Michael Kenna

O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.

[José Agostinho Baptista]

Que importa a minha maneira torta
de construir caminhos?
Ando melhor pelas florestas.
Meu lugar é entre as árvores,
não entre as pessoas…
(Gosto de tecer ninhos).

O silêncio é meu companheiro fiel,
embora bruto, o meu melhor amigo.
Às vezes, come o meu coração pelas beiradas
e arranca-me, a pancadas, um grito surdo…
(É quando percebo que ainda vivo).

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Dois abismos…

Jarek Kubicki4

Jarek Kubicki

{O mau de sentir intensamente, como eu sinto,
é que qualquer ato simples, como recordar-te,
me causa  dor, me faz querer chorar.
Somos dois abismos, fadados a mirar o mais alto céu
e desejar o salto, o voo, o absurdo do sonho.
Estamos fadados a nunca acontecer.}

***

Daqui, de onde me encontro, percebo que sempre estive à margem daquilo que me pertence. Não por falta de vontade ou por opção, mas creio que por uma espécie de merecimento. Considero a vida um ato de coragem que, a mim, me falta. Sempre me faltou coragem para tudo.

Sento-me à sombra dos meus medos e espero cantando, quase sempre com vontade de chorar, que alguma outra porta bem grande e iluminada se abra a minha frente, como uma espécie de sonho ou alucinação e que me faça sair daqui, para algum lugar bonito. Em vão.

Entendo que não há outra realidade além daquela que envolve o que sentimos. E o que sinto é muito. Os sentimentos são um caminho, muitas vezes, sem volta, de uma compreensão maior de tudo. E é nessas horas, vazias e de extremo silêncio, que me entorpeço de uma tristeza aguda que beira à loucura.

Ouço o som da minha própria voz e ela parece não me pertencer mais. Está tão longe de mim esse grito sem som, mas que eu ouço, insistentemente. E só ouço porque é meu grito interior. Estou alheia a tudo e tudo parece estar se equilibrando na superfície fina e, por isso, perigosa, que me separa do mergulho final. Sinto-me sem ar, logo eu, que pedi tão pouco à vida, que perdi tanto na vida. Ar…

A noite toma o quarto e escureço. Pesa-me saber que existo, aqui, sozinha. A solidão nunca me caiu bem e agora, que a noite toma o dia, e que ela vem sorrateira me fazer companhia, sinto-me miserável. Não sei pedir nada a ninguém, muito menos o necessário, muito menos amor.

E amo, indubitavelmente, amo. Talvez, e só talvez, este amor nada mais valha, aos olhos que me observa sem agora me entender. E eu digo: é só a minha alma transbordando, nua e estúpida. Nada mais. Não precisa ter medo. Mas, um amor assim, merece a indiferença das estrelas, numa noite como esta? Um amor, assim, de adorar…?

Tudo em mim é sentimento. E o que significa isso? Nada e tudo. Todas as palavras que tentam traduzir, em vão, o que eu sinto são, portanto, apenas palavras. Estúpidas palavras que significam tudo o que sou: nada. Por isso confusas.

Eu sou assim, tola e sensível, violenta e impulsiva. Trago comigo sentimentos nobres e vis, que se intercalam sem o menor pudor. Tudo em mim tem essa estranha tendência de vir à tona, um nascer de ave, um brotar no peito, sem sossego. Não faço por mal. É meu jeito de ser… Humana. E que, aviso, não me agrada muitas vezes. No entanto, não há como negar a substância da alma e não há como amar em mim só a metade positiva que me compõe e te completa. E, no fim, tudo não é sentimento, seja bom ou ruim?

Carrego, a duras penas, os meus defeitos, pois não posso abandoná-los à beira do caminho. Eles também desenham a minha alma e, por isso, talvez precisem (e mereçam) mais cuidados. Mas tudo isso que te digo deve ser apenas uma reflexão fútil, de sentimentos sem sentido. De resto, com quem posso contar agora, senão, com o que eu sinto?

Tento compreender como cheguei até aqui e desisto. Não há razão nem lógica no que sinto, nem no que escrevo, muito menos no que faço. Eu apenas sinto. O que escrevo são só lamúrias de uma alma magoada e triste, que não aprende a ser indiferente às inconstâncias do amor. Lamento. Seria bom poder ser eu mesma, sem condições, e deixar-te ser igualmente assim. Mas e se às vezes não consigo? Essa ainda sou eu, com minhas falhas e defeitos. Menos compreendida por isso?

Por um momento, queria eu poder sorrir de tudo isso, como se fosse uma grande piada. Mas não consigo. Pesa-me o choro nos olhos e sinto essa vontade inútil de chorar. Não tenho mais forças para me revoltar contra o absurdo da vida, os desencontros do amor. Meus olhos, incansavelmente tristes, renegam o brilho que antes te encantou. Creio que esse é o fim da esperança em mim, em ti e nos meus sonhos.

Só queria que tudo fosse menos doloroso. Queria alguma coisa que me fizesse parar de pensar, de sentir. Sinto uma vontade inexplicável de respirar. É como ter as mãos, ao redor do pescoço, sufocando-me o tempo todo. O meu choro, tolo, é um espetáculo sem ruído.

Eu sou a negação dessa noite que se inicia, um avesso do que é necessário, uma aberração. Mundos se formam e passam por mim, inabitados. Atmosferas imperfeitas se formam a minha volta, irrespiráveis. Tudo é pesado demais, triste demais. Soluços marcam o tempo e tudo é tão fundo, tão infinitamente negro e distante…

Um abismo. Ou dois.

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Janus Miralles

Deve haver algo que sustente em nós a palavra,
quando em queda habitamos o vazio

[Sândrio Cândido]

     Choro, incansavelmente. Um fio invisível de desespero me liga à essas lágrimas. Choro e não é um choro de ficção ou metáforas. Não é poesia. Choro, abraçada a mim mesma, no espanto de ser só eu e os meus ossos, a molhar o rosto, a encharcar as mãos. Dispo-me da humanidade que me persegue e, no escuro de mim, sinto-me bicho a espreitar os olhos da solidão. Somos feitas da mesma matéria insustentável. Apodreceremos juntas, de mãos dadas, nos encarando. Espero que isso nos traga alguma dignidade. Ela sabe das minhas fraquezas e, mesmo assim, me testa. Tece canções em meus ouvidos, de braços que eu não vou sentir ao redor de mim e de ombros que eu não poderei recostar a cabeça e descansar feliz. A solidão sabe da minha raiva e da inutilidade que esse sentimento expressa. Uma sombra a me perseguir, é o que ela é. Faz florescer no peito, rubra rosa tingida em dor. Alimenta o meu silêncio, enquanto sorri. E porque coexistimos, nada somos. Talvez isso nos baste. Sinto como se não pudesse mesmo existir sem esse vazio imenso. Tão enraizado se encontra o nada em mim que é difícil me definir alguma coisa longe dele. E tudo isso sinto, porque já não aguento sentir mais nada. Falso privilégio, este, de ter a alma no lugar da pele.

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